COLUNA TIRO LIVRE

Alan Franco, o carregador de piano do Atlético

Foi aos poucos que o volante equatoriano Alan Franco reescreveu a história dele com a camisa alvinegra

Carregador de piano. Os mais jovens talvez nunca tenham ouvido essa expressão. Mas, quando a colunista aqui iniciava a caminhada no jornalismo, integrando a turma dos jovens repórteres – lá pelo início dos anos 2000 –, o que mais gostava era de escutar as análises dos mais experientes. Naquelas eras pré-internet, as mesas redondas na TV reuniam a nata da crônica esportiva, e cada programa era uma aula de futebol. Dava gosto de ver.

Foi assim, ouvindo, por exemplo, Armando Nogueira nas priscas eras (outro termo das antigas) da ESPN que tive contato com uma linguagem particular do mundo da bola. O carregador de piano vem dessa época. Assim era denominado o jogador que faz o serviço pesado pelo time, muitas vezes (na maioria delas) sem aparecer para a torcida. Na linguagem moderninha, é pouca mídia e muito trabalho.

Algumas pessoas confundem o carregador de piano com o jogador brucutu, desprovido de técnica, de talento. Não é bem assim. O atleta que se encaixa nessa definição é aquele que joga pelo time, deixando o individualismo de lado. Um soldado silencioso.

O Atlético tem um jogador desse naipe: o volante Alan Franco. Pouco elogiado, é o motorzinho no meio-campo alvinegro. Nesta quinta-feira (27/2), o repórter Lucas Bretas, do No Ataque, apurou que os dirigentes atleticanos já iniciaram as conversas para renovar o contrato do equatoriano, que se encerra em dezembro deste ano.

Alan Franco é, hoje, titular absoluto do técnico Cuca. Era também um dos homens de confiança de Gabriel Milito. Mas a caminhada até aqui foi longa, e ele precisou superar um início difícil na Cidade do Galo para se consolidar no time.

Franco chegou ao clube com 21 anos, em meados de 2020, pelas mãos de Jorge Sampaoli, depois de se destacar no Independiente del Valle. Integrou o time terceiro colocado no Campeonato Brasileiro, deixando marcada, principalmente, a atuação na goleada por 3 a 0 sobre o São Paulo, no Mineirão, quando fez dois gols. Mas não foi uma temporada só de boas lembranças para Franco. Pelo contrário.

Alan Franco no Atlético

Era o início da pandemia de COVID-19. Ele perdera o pai para a doença em abril. No primeiro título com o Galo, do Campeonato Mineiro de 2020 – a finalíssima, contra o Tombense, foi disputada em 30 de agosto –, desabou em lágrimas. A imagem do choro de Alan Franco apegado à foto do pai rodou o mundo e foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais.

Em novembro, o volante contraiu o novo coronavírus quando estava com a Seleção Equatoriana, para jogos das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2022. O baque foi forte. Demorou a se recuperar, física e emocionalmente. Tanto que perdeu espaço em 2021, também com Cuca, e acabou emprestado. Primeiro, foi para o Charlotte, da liga norte-americana de futebol (MLS), e depois para o Talleres, da Argentina. Retornou ao Galo na metade de 2023.

Na conquista do Mineiro de 2024, outra cena de comemoração de Alan Franco ficou marcada: um abraço forte na psicóloga do Atlético, Michelle Rios, externando a importância do trabalho dela para a recuperação dele. Tão importante quanto os treinadores que acreditaram e apostaram nele.

Foi assim, aos poucos, que o equatoriano reescreveu a história dele com a camisa alvinegra. Encarnando o espírito raçudo que o torcedor gosta, percorre o campo na caça pela bola, como uma barreira à frente dos zagueiros. Não é marqueteiro, aparece pouco. Mas faz muito pelo time. Mais maduro, Alan Franco tem mostrado que, além carregar o piano, é um exímio pianista.

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