A ansiedade já foi nomeada mal do século. Não por acaso – vivemos em uma sociedade regida pelo correr de relógios tecnológicos, que não mais fazem uso de ponteiros para mostrar as horas. Transformaram-se em máquinas de demonstrar números: medem distâncias, contam passos, monitoram batimentos cardíacos (cada vez mais acelerados), mandam e recebem mensagens e até pagam contas. O tempo soa, cada vez mais, como um inimigo. Tudo é para ontem. E o futebol entrou nessa roleta-russa de análises meteóricas.
O primeiro mês do ano acabou de passar da metade. A primeira competição da temporada está no início. A janela de transferências do futebol brasileiro foi aberta há pouco mais de duas semanas, clubes ainda correm atrás de reforços e podem perder peças importantes. Novos jogadores se apresentam e muitos nem sequer estrearam.
Mas já há quem peça cabeça de treinador e faça previsões sombrias para toda a temporada a partir de apenas quatro jogos. Mais do que isso: quatro jogos disputados nesse contexto. Análises ditadas pela ansiedade de formar vereditos. De estabelecer verdades.
Houve um tempo (e nem precisamos retroceder muito) em que janeiro era mês dedicado à pré-temporada dos times. A programação começava com testes físicos e exames médicos para, a partir daí, seguir um cronograma de atividades físicas e técnicas.
Por pelo menos duas ou três semanas, a ordem era treinar, treinar e treinar. Sem muito trabalho tático: era momento de montar o alicerce, para assegurar uma base que suportasse a maratona de partidas até o fim do ano.
Vez por outra um jogo-treino quebrava a rotina, dentro das dependências dos clubes mesmo, para testar o avanço dos trabalhos e começar a afinar o entrosamento. Veja bem: começar. Aí, sim, entravam em ação os ensaios táticos, de montagem de filosofia de jogo. Tudo ainda incipiente, um pontapé inicial.
Até que bem no fim de janeiro ou no início de fevereiro vinha o primeiro jogo oficial, com a apresentação da “nova” equipe à torcida e a possibilidade de azeitar a engrenagem na prática, colocando o time em movimento.
Era uma lógica que propiciava pensar o futebol em etapas bem definidas, paulatinas, importantes para a formatação de um entendimento coletivo de equipe.
O início de 2026 no Atlético
Hoje, parece não haver mais espaço para isso. Em 2026, em especial, toda essa preparação foi atropelada por um calendário adaptado para a Copa do Mundo, entre junho e julho – quando as competições em solo brasileiro serão paralisadas em detrimento da grande vedete do futebol mundial.
Por isso, jogadores estão sendo apresentados em um dia, treinando no outro e entrando em campo no seguinte. Foi praticamente assim com Preciado, no Atlético. Ele desembarcou no aeroporto de Confins dia 11, foi anunciado oficialmente pelo Galo no dia 16, teve o nome publicado no Boletim Informativo Diário (BID) no dia 19 e estreou com a camisa alvinegra no dia 21.
Nesses 10 dias entre a chegada a BH e o primeiro jogo mal teve tempo de aprender o caminho para a Cidade do Galo. Ainda deve estar decorando o nome dos companheiros de equipe. Não foi, contudo, o único a ser submetido a esse cartão de visitas relâmpago: Maycon e Renan Lodi também vivenciaram tal experiência nos primeiros dias de Atlético. Sem tempo para apurar a forma física (como todos do grupo, aliás), nem para se adaptar à nova casa.
Nessas circunstâncias, o Galo ainda não venceu no Campeonato Mineiro – são quatro empates em quatro partidas. Há de ser criticado por isso, já que, mesmo com uma equipe em formação, imagina-se que tenha repertório técnico suficiente para melhores resultados.
Entretanto, não se pode confundir as coisas. Tudo é processo, e é preciso saber diferenciar cobranças pontuais de campanhas contra o técnico Jorge Sampaoli a esta altura do ano. Se não for assim, não haverá ansiolítico que dê jeito.