Poucas cidades do Brasil – e do mundo – têm uma relação mais forte com uma santa que Belém. Padroeira do Pará, Nossa Senhora de Nazaré é homenageada todo ano na cidade nortista com a maior procissão católica do planeta – o Círio de Nazaré.
A festa dura cerca de 20 dias e sempre acontece em outubro, reunindo milhões de devotos, que percorrem quilômetros para levar a imagem da santa da Catedral da Sé à Praça do Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.
Maiores clubes de Belém, o Remo e o Paysandu naturalmente também têm conexão muito forte com a padroeira do estado. As sedes de ambos ficam localizadas na Avenida Nossa Senhora de Nazaré, no Bairro de Nazaré, a poucos minutos da basílica que também leva o nome da santa e que guarda a imagem dela para o Círio. Em setembro deste ano ano, inclusive, ambos lançaram camisas em homenagem à tradicional festividade.
Recentemente, contudo, um dos dois gigantes nortistas estreitou ainda mais sua relação com Nossa Senhora de Nazaré e fez dela amuleto para um sonho que não se realiza há mais de trinta anos: o Remo.
A fase ‘iluminada’ do Remo na Série B
O Remo não disputa a Série A do Campeonato Brasileiro há 31 anos – a última edição que o Leão Azul jogou foi a de 1994, quando a competição ainda não era disputada no formato de pontos corridos.
Desde então, o time passou pela Série D, pela Série C, pela Série B e até chegou a ficar sem divisão em 2009 e 2011. Mas, em 2025, encontra-se muito próximo de conseguir o acesso de volta à elite nacional.
A equipe treinada por Guto Ferreira é a terceira colocada da Segunda Divisão, com 59 pontos conquistados em 36 jogos. O gigante paraense depende só de si para conquistar o acesso e, caso haja combinação de resultados negativos dos adversários diretos, pode alcançá-lo já na próxima rodada – a 37ª, na qual enfrenta o Avaí, no sábado (15/11), a partir das 16h30.
A briga, contudo, está acirrada. Abaixo do líder Coritiba, que tem 64 pontos e já encaminhou o título e o acesso, só dois pontos separamos seis times que lutam pelo acesso. Leia, ao fim da matéria, a classificação da Série B.
Como a relação do Remo com a santa se estreitou na Série B
Invicto há oito jogos, o Remo é o time mais embalado entre os que lutam pela ida para a Série A. Um dos jogos-chaves dessa sequência, ainda no início dela, foi o clássico com o arquirrival Paysandu, no dia 14 de outubro, pela 32ª rodada da Série B do Campeonato Brasileiro.
Antes do jogo, que foi disputado em meio ao período de festividades pelo Círio de Nazaré, a metade da torcida do Remo que ocupou o Mangueirão lotado decidiu fazer mosaico em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré.
O feito “deu sorte”, já que o Leão Azul conseguiu a vitória no “apagar das luzes” do jogo, nos acréscimos, com golaço de falta do atacante uruguaio Diego Hernandez. A vitória por 3 a 2 ainda foi importante animicamente para os torcedores remistas porque “afundou” ainda mais o Paysandu na lanterna da Série B – pouco depois, o Bicolor seria matematicamente rebaixado à Terceira Divisão Nacional.
Remo ‘adotou’ padroeira como amuleto após o clássico
A vitória dramática no Re-Pa foi o ponto de partida do estreitamento das relações entre Remo e a Nossa Senhora de Nazaré. Depois disso, os jogadores do Leão Azul passaram a entrar em campo carregando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré antes dos jogos, vestida com manto azul.
Uma semana após o clássico, no dia 21 de outubro, antes de confronto direto com o Cuiabá e em meio à reta final do Círio de Nazaré, toda a delegação do Remo visitou o Santuário de Nossa Senhora de Nazaré para pedir que a santa abençoasse a equipe na briga pelo acesso.
Recentemente, após o empate por 1 a 1 entre Remo e Chapecoense, na 34ª rodada da Série B, no estádio Baenão, o técnico Guto Ferreira deu coletiva de imprensa com grande imagem da santa do seu lado esquerdo.
Guto, que chegou no final de novembro e comanda a reação do time paraense no torneio, falou sobre a relação com Nossa Senhora de Nazaré como uma das coisas que mais o têm impressionado no clube.
“Como eu disse, essa cultura, esse amor, essa fé… eu imaginava que existissem, mas não com tanta energia. Acho que isso impulsiona o Remo a ser o que é — e pode impulsionar o clube a ser ainda mais gigante do que já é.”
Guto Ferreira, ao O Liberal
“Pelo que a gente tem visto, mesmo de fora, só temos coisas boas a dizer [do Círio]. Tenho comentado muito em outras entrevistas quando perguntam a mesma coisa: o sentimento, a energia. Mas é algo inexplicável. E não estou falando apenas do momento da procissão. Cheguei por volta de 16h45, entrei na avenida e ela já estava tomada. O simples fato de passar ali já dava arrepio”, continuou o técnico.
“A partir daí, comecei a entender o que vejo depois por parte dos torcedores, essa expectativa, essa paixão. E olhando para trás, percebo o que antes eu não compreendia, quando via os jogos do Remo ou de outros clubes de Belém: essa energia é cultural, é do paraense, é do belenense. E isso é fantástico”, finalizou.
Conexão histórica do Remo com Nossa Senhora de Nazaré
O Remo tem vários outros “eventos canônicos” na sua conexão histórica com Nossa Senhora de Nazaré.
Em 1999, o gol do ex-atacante Scott que salvou o Remo do rebaixamento para a Série C no segundo tempo, contra o CRB-AL, foi seguido de comemoração emocionada dele, que agradeceu veementemente a padroeira do Pará. O tento passou a ser chamado de “Gol da Santinha” e tornou-se presença marcante na memória afetiva da torcida azulina.
Em 2003, o Remo enfrentaria o Botafogo na Série B em 11 de outubro, dia em que ocorreria a Trasladação do Círio de Nazaré. Para homenageá-laa, a diretoria colocou a imagem da padroeira em todos os ingressos da partida, que foi vencida pelos azulinos por 3 a 2.
Em 2005, na Série C pela primeira vez na história, o Leão Azul passou a entrar com banner da Nossa Senhora de Nazaré antes de cada jogo da reta final da competição. O Remo se sagrou campeão com vitória sobre o Novo Hamburgo fora de casa e, na foto que estampa o pôster oficial do título, os jogadores exibiram o banner da padroeira.
No ano passado, a Nossa Senhora de Nazaré acompanhou a torcida do Remo em mais um acesso. Antes da vitória por 1 a 0 que garantiria a vaga na Série B, os adeptos fizeram mosaico no Mangueirãoem homenagem à santa, acompanhado de tifo do santuário dedicado a ela e de um leão vestido com a camisa azulina erguendo uma imagem da padroeira. Abaixo, os dizeres: “Abençoados pela Virgem de Nazaré”.
Após a conquista, o zagueiro Rafael Castro pagou promessa e subiu as escadarias dao Santuário de Nazaré de joelhos antes de assistir a uma missa no local.
Classificação da 36ª rodada da Série B
- Coritiba – 64 pontos (18 vitórias, 10 empates, 8 derrotas)
- Athletico-PR – 59 pontos (17 vitórias, 8 empates, 11 derrotas)
- Remo – 59 pontos (15 vitórias, 14 empates, 7 derrotas)
- Chapecoense – 58 pontos (17 vitórias, 7 empates, 12 derrotas)
- Criciúma – 58 pontos (16 vitórias, 10 empates, 10 derrotas)
- Goiás – 58 pontos (16 vitórias, 10 empates, 10 derrotas)
- Novorizontino – 57 pontos (14 vitórias, 15 empates, 7 derrotas)
- CRB – 53 pontos (15 vitórias, 8 empates, 13 derrotas)
- Avaí – 52 pontos (13 vitórias, 13 empates, 10 derrotas)
- Atlético-GO – 51 pontos (13 vitórias, 12 empates, 11 derrotas)
- Cuiabá – 50 pontos (13 vitórias, 11 empates, 12 derrotas)
- Vila Nova – 46 pontos (11 vitórias, 13 empates, 12 derrotas)
- América – 45 pontos (12 vitórias, 9 empates, 15 derrotas)
- Operário – 44 pontos (11 vitórias, 11 empates, 14 derrotas)
- Botafogo-SP – 41 pontos (10 vitórias, 11 empates, 15 derrotas)
- Athletic – 40 pontos (11 vitórias, 7 empates, 18 derrotas)
- Ferroviária – 40 pontos (8 vitórias, 16 empates, 12 derrotas)
- Amazonas – 35 pontos (8 vitórias, 11 empates, 17 derrotas)
- Volta Redonda – 34 pontos (8 vitórias, 10 empates, 18 derrotas)
- Paysandu – 27 pontos (5 vitórias, 12 empates, 19 derrotas)