Sabará, na Grande Belo Horizonte, se despede nesta terça-feira (6/1) de um de seus maiores ídolos: o ex-goleiro Djair Fabrício do Vale, de 87 anos, que morreu na véspera e será sepultado às 17h, no Cemitério Terra Santa. Ele foi titular e um dos destaques do Siderúrgica, campeão mineiro em 1964.
Djair morreu de causas naturais, em casa. Ele nasceu em Três Rios, no estado do Rio de Janeiro. Começou a carreira no Flamengo e se transferiu para o Siderúrgica em 1956, quando se mudou para Sabará para trabalhar, como eletricista, na Companhia Belgo Mineira.
Mas, ao se destacar nas ‘peladas’ com os colegas, logo foi contratado para defender o time sabarense, que tinha a Tartaruga como símbolo. “Era um grande goleiro”, lembra o vice-presidente Alexandre Sanchez.
Djair era baixinho. Tinha apenas 1,68m de altura. No entanto, dentro de campo, como diz Alexandre, se agigantava.
Era uma aposta daquele time campeão, em especial do treinador Yustrich, o Dorival Knippel, também conhecido por “Homão”. O técnico o admirava e fez com que ele se projetasse como um dos melhores do futebol mineiro.
Djair foi um dos destaques do time naquela decisão do Estadual contra o América. O goleiro se destacou com defesas fabulosas na partida, disputada no Estádio Otacílio Negrão de Lima, conhecido por “Alameda”.
O time do Siderúrgica era formado por Djair, Geraldinho, Chiquito, Zé Luiz e Dawson Laviolla; Edson e Paulista; Ernani, Silvestre, Noventa (Aldeir) e Tião Cavadinha. Técnico: Yustrich.
A conquista foi no dia 13 de dezembro de 1964, uma data histórica para os amantes do futebol mineiro.
Djair, apesar de ser fluminense de nascimento, adotou Sabará como sua terra. Depois de parar de jogar, seguiu a vida na cidade. Foi trabalhar no Clube Charlet. Cuidava da parte de esporte, em especial, do campo e da grama.
Até o dia da morte, levantava-se lembrando dos tempos de glória e dos momentos que antecederam o título. “Eu tenho dois aniversários por ano, em datas muito próximas. A primeira, em 20 de novembro, quando nasci. A segunda, no dia da nossa conquista”, declarou, em entrevista ao No Ataque em 2024.
Ao recordar o passado, um nome não sai da mente de Djair: o técnico Yustrich. Para ele, o principal responsável pela conquista. “Ele chegou em 1963, e mudou tudo. Trouxe uma nova filosofia e soube, principalmente, nos valorizar, assim como a cidade de Sabará”.
“Ele dizia sempre que iria nos treinar para sermos campeões. E foi o que fez. É uma frase inesquecível pra mim”, não cansava de repetir o ex-goleiro.
Djair contava, também, que o treinador chegou no ano anterior à conquista e foi aí que as mudanças começaram a acontecer. “Naquele primeiro ano, ele começou a nos preparar. Mas foi em 1964 que houve as mudanças. Primeiro, ele não queria mais que ninguém trabalhasse e jogasse. Todos nós éramos funcionários da Belgo-Mineira. Ele acabou com isso. Fez um acordo com a companhia, que continuou a nos pagar. Mas a gente só treinava e jogava. Isso foi fundamental.”
Havia três goleiros naquele time do Siderurgica: ele – o mais baixinho (1,68m) -, Dila e Nonó. Contava que até a chegada de Yustrich, não tinha chance. “Ele nos treinava em separado. Travas nos três da mesma maneira, como se todos fossem titulares.” Um quarto goleiro, Bajoso, foi dispensado e se transferiu para o Villa Nova.
Yustrich escolheu Djair para ser o titular. O motivo? Ser um jogador que praticamente não se contundia. “Eu não machucava nunca. Já meus companheiros, sim”.
Uma das maiores virtudes de Yustrich, segundo Djair, era o fato de estudar o adversário. “Ele observava o modo de jogar do adversário, no primeiro tempo. No segundo, mudava tudo. Era outro jogo. No vestiário, Yustrich mudava a maneira do nosso time jogar. Era infalível”.
E contava detalhes que o treinador adotou para transformar o time, cada vez mais, poderoso. Entre as inovações implantadas por Yustrich estava a maneira do ponta-esquerda Tião cruzar. “Era chamado de cavadinha, quando levantava a bola, batendo por baixo dela, como se estivesse escavando o chão”.
Aquela conquista não saía de sua memória. Gostava de lembrar casos. O ex-goleiro conta que no jogo contra o Cruzeiro, no qual o Siderúrgica foi derrotado por 1 a 0, Tião foi marcado duramente pelo lateral-direito Pedro Paulo. “Foi a nossa única derrota. Mas tenho certeza, que o gol, do Tostão, foi em impedimento”.
O time tinha um outro segredo, segundo ele: a amizade. “Nos tornamos todos amigos e isso foi determinante para conseguirmos conquistar o título. Quem fez isso foi o Yustrich”.
E falava do sonho que realizou ao ser campeão. O título foi determinante para ele realizar um sonho: comprar um Fusca. Ainda tinha o carro. “Eu paguei R$ 6 mil nele e já enjeitei R$ 90 mil.” Todas as manhãs, ele acordava, tomava café e ia para dentro do carro, que é sua paixão.
A conquista do título, segundo contava, teve um segundo momento, além do campo. A hora de voltar para Sabará e comemorar. A torcida e a cidade estavam esperando. Parte dos jogadores retornou na jardineira que os levava para os jogos, onde também estava Yustrich.
Outros preferiram ir a pé para pagar promessa. Foram eles Silvestre, Dawson Laviola, Paulista, Aldeir e Noventa. E lembrava que Noventa jogou e marcou um gol com o braço quebrado. “Ele se contundiu ainda no primeiro tempo, mas Yustrich não quis substituí-lo. O atacante jogou o jogo inteiro e só depois disso, foi tratado”.
O jogo do título
América 1 x 3 Siderúrgica
- América: David; Luisinho (Robson), Klebis, Zé Horta e Catocha; Zé Emílio e Nei; Geraldo, Jair Bala, Dario e Sérgio. Técnico: Moacir Rodrigues.
- Siderúrgica: Djair; Geraldinho, Chiquito, Zé Luis e Dawson; Edson e Paulista; Ernani, Silvestre, Noventa (Aldeir) e Tião. Técnico: Yustrich.
- Gols: Ernani (21′), Noventa (24′), Aldeir (44′) e Jair Bala (78′)
- Motivo: Campeonato Mineiro de 1964
- Data: 13 de dezembro de 1964
- Estádio: Otacílio Negrão de Lima (Alameda)
- Público: 8.970 pagantes
- Renda: Cr$ 4.245.250,00
- Árbitro: Doraci Jerônimo (MG)