O Campeonato Mineiro de 2026 começa neste sábado (10/1) com os dois gigantes da capital em momentos diametralmente opostos. Enquanto o Cruzeiro tenta quebrar um jejum de sete anos e consolidar um projeto milionário sob o comando de Tite, o Atlético busca o heptacampeonato histórico em meio a uma crise de gestão e um elenco em reconstrução com Jorge Sampaoli.
Para projetar as perspectivas técnicas e as ambições de cada clube, consultamos os colunistas do Estado de Minas e No Ataque, Gustavo Nolasco e Fred Melo Paiva, que traçaram o diagnóstico de Cruzeiro e Atlético, respectivamente, para o Estadual.
Gustavo Nolasco: ‘Chance de testar o time’
No lado celeste, a competição aparece menos como uma obsessão imediata por taça e mais como parte de um processo. Para Gustavo Nolasco, o Mineiro tem um peso distinto para o Cruzeiro em comparação aos demais clubes do estado. A expectativa é que o campeonato sirva para dar rodagem ao time e permitir que o torcedor acompanhe, jogo a jogo, a construção da equipe pensada para disputar as competições nacionais e a Libertadores.
“Enquanto o Campeonato Mineiro é a única chance de título em 2026 para todos os outros times, para a Cruzeiro, será a chance de testar o time, sem precisar ser assunto ou ‘gol de honra’ para seus comunicadores ou para suas torcidas”, iniciou Nolasco.
“Brincadeira de lado, eespero que o Cruzeiro aproveite o campeonato para dar rodagem ao time e também para dar oportunidade para a sua torcida acompanhar o time que vai sendo formado para disputar os títulos nacionais e internacionais”, completou.
O contexto ajuda a explicar essa leitura. Após um 2025 frustrante, com eliminação precoce no Mineiro, o Cruzeiro inicia o novo ano respaldado por investimentos elevados – como a contratatação de Gerson – e pela chegada de Tite, treinador escolhido para liderar um projeto de maior fôlego.
Com calendário cheio, que inclui Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores, a tendência é de que o Estadual funcione como laboratório competitivo, sem a pressão de ser tratado como salvação da temporada. A ideia, segundo Nolasco, passa por testar formações, observar peças e oferecer ao público uma amostra do time que está sendo moldado para desafios mais amplos.
Fred Melo Paiva: ‘Não tem ninguém otimista’
No Atlético, o cenário é bem mais carregado de incertezas. Fred Melo Paiva avalia que o sentimento predominante no clube alvinegro é a ausência de otimismo, não apenas em relação ao Campeonato Mineiro, mas à temporada como um todo.
A avaliação é de que o período de preparação foi insuficiente e que o elenco segue incompleto, com carências evidentes após saídas importantes. A reposição de Guilherme Arana por Renan Lodi, por exemplo, é vista como positiva de forma isolada, mas insuficiente para caracterizar uma real qualificação do grupo, já que o ideal seria contar com ambos.
“Em decorrência da forma como o Galo vem sendo gerido, eu acho que não tem ninguém otimista com relação ao Campeonato Mineiro e com relação a tudo. A gente não considera que trabalhamos adequadamente nessa parada, faltam jogadores, os jogadores que saíram, especialmente o Arana. Veio o Lode, é uma boa contratação, mas seguimos com um elenco limitado, se a gente tivesse os dois, diríamos que qualificamos o elenco, mas não é o caso”, observou.
Além das questões técnicas, Fred aponta problemas profundos de gestão, especialmente no trato com o elenco. O episódio envolvendo Hulk é citado como símbolo de uma condução equivocada, uma situação que poderia ser resolvida internamente acabou exposta publicamente, gerando desgaste, ruído e a perspectiva de um principal jogador atuando insatisfeito, apenas cumprindo contrato. Para o colunista, trata-se de um retrato de falhas mais amplas, que passam pela gestão de pessoas e pela administração financeira do clube.
“Não é pegar no pé dos gestores da SAF, não. Mas o episódio do Hulk era uma coisa pra ser conduzida internamente, com jeito. Virou racha público, um cenário que é o pior que tem. O Hulk jogando insatisfeito, apenas cumprindo o contrato que cabe a ele cumprir, a SAF, o clube, o time, obrigado a engolir, é muito complexo, é uma gestão de pessoas, assim, muito equivocada, como tudo, a gestão de pessoas, a gestão financeira, tudo”, ressaltou.
Nesse contexto, o Campeonato Mineiro, que tradicionalmente funcionaria como uma espécie de pré-temporada para testes e lançamento de jovens da base, surge comprometido para o Atlético na visão de Paiva. Ainda assim, o peso histórico do torneio impede que ele seja tratado como secundário.
A possibilidade de conquistar o sétimo título consecutivo transforma a competição em algo relevante, apesar do momento delicado. Mesmo assim, Fred Melo Paiva é categórico ao afirmar que o Atlético não entra como favorito e que, dentro da lógica atual, o caminho é complicado, exigindo quase um “milagre” para que tudo se encaixe rapidamente.
“Vamos olhar para esse Campeonato Mineiro com carinho, porque é uma possibilidade de ganhar o sétimo título consecutivo e isso, independentemente de ser uma competição hoje de menor importância, ele se torna importante em razão disso, né? Mas a minha expectativa é de que não somos os favoritos. Vamos ter que acreditar um pouco num certo milagre aí… Nós vamos ter que acreditar que as coisas de repente vão encaixar um pouco num passe de mágica, porque de acordo com a lógica, as coisas são complicadas”.
A esperança atleticana repousa, sobretudo, em Jorge Sampaoli. Fred acredita que o treinador pode, de certa forma, sobreviver às limitações da direção e resgatar um time mais intenso, com a identidade de jogo que marca seu trabalho. “A melhor expectativa que temos é um Sampaoli que resgate um bom time e resgate a intensidade de jogo que ele gosta, e que o Campeonato Mineiro seja esse laboratório, essa pré-temporada”.
Agenda da estreia:
Cruzeiro x Pouso Alegre
- Sábado (10/1), às 18h30, no Mineirão.
Atlético x Betim
- Domingo (11/1), às 18h, na Arena MRV.