FUTEBOL INTERNACIONAL

Federação Alemã: ‘Não há debate sobre boicotar a Copa do Mundo’

Desde a semana passada, a federação vinha ignorando pedidos de comentários sobre um eventual boicote à Copa do Mundo

A Alemanha precisa “pensar e discutir concretamente” um boicote à Copa do Mundo de Donald Trump, declarou na semana passada um vice-presidente da DFB, a federação de futebol do país. Nesta segunda-feira (26), o presidente da federação declarou que “não há um debate” sobre o assunto.

Propagada por personalidades e políticos em redes sociais em reação às bravatas do presidente americano sobre anexar a Groenlândia, na semana passada, a ideia de protestar contra o presidente americano permeou uma entrevista de Oke Göttlich, presidente do St.Pauli, à véspera do clássico contra o Hamburgo, na semana passada.

Ex-jornalista, produtor musical e dirigente do time mais peculiar da Alemanha, Göttlich já havia se manifestado sobre o assunto em redes sociais, perguntando se as seleções europeias deveriam participar de um torneio “em um país que está atacando a Europa indiretamente e daqui a pouco diretamente”.

“O colega ainda não está conosco há muito tempo”, declarou Bernd Neuendorf, presidente da DFB, o cargo máximo do futebol alemão, em um pito público no subordinado. “Como regra geral, discutimos esses assuntos primeiro nos comitês e depois formamos nossa opinião. Infelizmente, ele se precipitou.”

Bandeira pirata em córner do estádio do St.Pauli, símbolo do clube alemão, cujo presidente defendeu boicote à Copa do Mundo nos EUA, durante a partida contra o Hamburgo que terminou em 0 a 0.

Göttlich está na federação desde o fim do ano passado. Ele é um dos representantes da Bundesliga, a liga profissional do país, na entidade. A questão hierarquica não o impediu de criticar a DFB por se manter “silenciosa, quase sem palavras”, diante das reiteradas ameaças de Trump aos países europeus, de tarifas comerciais à invasão do espaço territorial dinamarquês.

De fato, a primeira manifestação de Neuendorf sobre o assunto ocorreu apenas nesta segunda-feira, quando participou de um evento público e foi provocado pelos jornalistas. Desde a semana passada, a federação vinha ignorando pedidos de comentários sobre um eventual boicote, inclusive da Folha.

O assunto chegou a provocar uma reação do governo Friedrich Merz, que empurrou o problema de volta para a DFB. Na França, a ministra de Esportes e da Juventude, Marina Ferrari, não escapou do assunto, declarando-se contra. “Sou alguém que acredita em manter o esporte separado [da política]. A Copa do Mundo é um momento extremamente importante para aqueles que amam o esporte.”

Neuendorf foi por caminho parecido. “Acredito que cada torcedor deve decidir isso por si mesmo. Temos da FIFA o número de pessoas que adquiriram ingressos para esta Copa do Mundo. Os alemães estão entre os primeiros”, contou. “Cada um pode avaliar por si mesmo [a questão].”

Apelar para a procura de ingressos também foi a estratégia de Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante visita ao Brasil. Para ele, Copas do Mundo “unem as pessoas”.

Dias antes, Göttlich pedia uma reflexão também de outras federações europeias, sugerindo que a Uefa, a confederação que rege o futebol no continente, poderia organizar um torneio paralelo entre as seleções que aderissem ao boicote. Para o cartola do St.Pauli, Trump é um perigo maior, sem comparação com Qatar, sede do Mundial de 2022, ou Arábia Saudita, que receberá o torneio de 2034, países associados a violações de direitos humanos.

Ainda que tenham atitudes reprováveis, “pelo menos não emitiram ameaças ou ataques abertos contra a Europa”, justificou Göttlich, acostumado a sustentar posições firmes à frente de seu clube, símbolo de embates políticos e sociais.

Pautas defendidas pelo St.Pauli

O St.Pauli, que prevê em seu estatuto a defesa da “responsabilidade social” e “os interesses de seus sócios, empregados, torcedores e voluntários para além da esfera esportiva”, sustenta abertamente bandeiras da esquerda, como a proteção a refugiados e direitos da comunidade LGBT.

Talvez seja o único time profissional do mundo que já teve as cores do arco-íris estampadas no próprio uniforme e em bandeira no estádio. Subiu da segunda divisão há duas temporadas e frequenta a zona do rebaixamento, esgrimindo um orçamento modesto, pois recusa investidores de “capital suspeito”.

“A vida de um jogador de futebol profissional não é mais importante do que a vida de muitas pessoas, em diferentes regiões, que estão sendo atacadas ou ameaçadas direta ou indiretamente pelo anfitrião da Copa”, disse Göttlich, ao jornal Hamburger Morgenpost, quando indagado se um boicote seria justo com seus jogadores.

O St.Pauli tem ao menos três atletas com esperanças de ir ao Mundial, os australianos Jackson Irvine e Connor Metcalfe e o japonês Joel Chima Fujita. Por enquanto, objetivo que só depende deles em campo.

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