O jogo entre Botafogo e Cruzeiro nesta quinta-feira (29/1), às 21h30, no Engenhão, pelo Campeonato Brasileiro, coloca em confronto modelos de Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) que passam por momentos distintos: enquanto o Glorioso atravessa fase turbulenta, a Raposa experimenta seu cenário mais promissor desde o retorno à Série A.
Cruzeiro e Botafogo foram pioneiros na transformação da associação em SAF. No fim de 2021, o clube mineiro teve o controle adquirido por Ronaldo Fenômeno, ao passo que o time carioca passou às mãos do empresário norte-americano John Textor.
Sob a gestão de Ronaldo, o Cruzeiro iniciou processo de reorganização financeira com investimentos modestos. O clube aprovou plano de recuperação judicial, ganhou fôlego para administrar suas dívidas e equilibrou as contas do dia a dia.
Mesmo com orçamento limitado, a equipe foi montada de forma competitiva e conseguiu o acesso à elite do futebol brasileiro em 2022, após dois anos na Série B. No ano seguinte, já de volta à elite, manteve elenco enxuto, mas suficiente para garantir a permanência.
Em 2024, pressionado por maior ambição esportiva, Ronaldo vendeu suas ações da SAF ao empresário Pedro Lourenço. Desde então, o novo dono passou a investir de forma mais agressiva, embora ainda não tenha conquistado títulos de expressão.
Com recursos próprios, o empresário do setor supermercadista promoveu melhorias na Toca da Raposa II, reforçou o elenco, contratou profissionais de alto nível e manteve as finanças em dia. Cruzeirense declarado, ele tem como sonho entregar uma grande conquista à torcida neste ano.
O bom momento fora de campo reflete nas arquibancadas. A torcida celeste vive clima de empolgação com o retorno à Copa Libertadores e vê o time como um dos candidatos aos títulos do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil.
Botafogo: do sonho à crise
O Botafogo, por sua vez, recebeu investimentos significativos desde a chegada de John Textor ao controle da SAF.
Com alto poder financeiro, o clube montou elencos estrelados, reunindo jogadores de seleção como Thiago Almada (Argentina), Luiz Henrique (Brasil), Bastos (Angola) e Savarino (Venezuela).
Os resultados apareceram rapidamente. Em 2024, o time conquistou o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores, vivendo um dos períodos mais vitoriosos de sua história.
A conta, porém, chegou. Diferentemente de Pedro Lourenço, John Textor não utilizou recursos próprios no negócio, o que passou a gerar instabilidade e desafios na continuidade do projeto.
Recentemente, o clube carioca foi condenado a pagar cerca de R$ 110 milhões ao Atlanta United (EUA) pela compra de Thiago Almada. O Glorioso sofreu transfer ban e não pode registrar reforços por três janelas.
A SAF do Botafogo tem dívidas pelo menos R$ 1,5 bilhão, sendo R$ 700 milhões de curto prazo.
Para piorar, Textor está em situação delicada na sua empresa, a Eagle Football Holdings. Com gestão controversa, ele perdeu poder e foi afastado do Lyon, outro clube do qual é dono.
Além disso, a maior credora da Eagle, a Ares Management, entrou em cena para tomar o controle da empresa de Textor por deterioração financeira, quebra de governança e risco ao pagamento da dívida. O caso está em disputa judicial.
Todo esse cenário mostra o drama vivido pelos torcedores do Botafogo.