As sete cirurgias nos joelhos abreviaram a trajetória de Sílvio no futebol. Porém, nos 12 anos em que teve o esporte como principal profissão, de 1984 a 1996, o odontologista tomou decisões que lhe proporcionaram estabilidade financeira. A principal escolha foi a ida para o Yomiuri SC (atual Tokyo Verdy), do Japão, após terminar o Campeonato Mineiro de 1990 como artilheiro, com 20 gols pelo América.
‘Fazer 20 gols no estadual gera um destaque muito grande, mesmo sem ser campeão ou jogar por Cruzeiro e Atlético. Isso abriu portas para mim no Internacional e na equipe do Japão. Eu fiz a opção de ir para o Japão. Analisei as duas propostas e vi que era uma oportunidade de regularizar a parte financeira. Era uma proposta melhor. Fui para o outro lado do mundo”, disse o ex-centroavante, hoje com 58 anos, em entrevista ao No Ataque.
Segundo Sílvio, a oferta japonesa era muito vantajosa. “O que se ganhava no América e o que o Inter tinha me oferecido, no Japão eram 30 vezes mais. Não tinha como nem pensar. E para o América também era interessante, já que o clube receberia um valor pelo empréstimo e poderia me comprar caso eu fosse bem. Seria bom para ambos”.
O goleador do Coelho conseguiu se estabilizar financeiramente no Japão. “Minha cabeça sempre foi muito boa nesse sentido. Lógico, você quer comprar um apartamento, um carro bom. É importante na vida também, mas pensando no futuro. E eu sempre tive os pés no chão, consegui dar uma estabilizada naquele momento. A gente sabia que o futebol brasileiro em geral não pagava grande coisa naquela época. Então, quando tínhamos uma oportunidade como essa, era para aproveitar”.
A ida de Sílvio para o Japão ocorreu por indicação do técnico Carlos Alberto Silva, que já queria levar o atacante desde quando dirigia o Cruzeiro, e teve o aval do preparador físico Odilon Guimarães. Time mais forte da liga local, o Yomiuri conquistou o título com uma campanha de 15 vitórias, quatro empates e três derrotas em 22 jogos.
Quando tudo parecia correr bem na Ásia, veio a primeira lesão complexa. “No fim da temporada, tive uma contusão gravíssima, que foi a de LCA. Na hora de renovar o contrato, como faz? Veio num momento muito difícil, meu passe era do América, então fiz a opção de retornar ao América para prosseguir”, recorda Sílvio, que marcou 11 gols em sua passagem pelo Yomiuri.
A vida no Japão
Por causa da qualidade do elenco do Yomiuri, Sílvio não sentiu nenhuma dificuldade de adaptação ao estilo de jogo. “Meu time tinha seis a oito jogadores da Seleção Japonesa. Era um time muito bom. Fomos campeões no Japão com sete pontos à frente da segunda colocada, a Nissan (hoje denominado Yokohama Marinos). Fizemos uma excelente campanha, então não deu para notar tanta diferença em relação aos outros”.
Ele ainda destacou a honestidade e o respeito do povo japonês. “A educação deles é acima da média. Por exemplo, tinha uma falta dentro de campo, o Carlos Alberto Silva falava: ‘o juiz olhou para lá, vamos andar a barreira’. O capitão do time falava: ‘não pode andar. Tem que seguir a regra’. E foi assim”. Tentamos introduzir essa malandragem, mas eles eram bem irredutíveis”.
“A cultura é completamente diferente. Lembro também de um vizinho que tinha kiwi no quintal. Ele colocava uma caixinha de kiwi e o valor. Chegava à noite, estava lá o dinheiro, tudo certo. Claro que alguns brasileiros foram para lá e atrapalharam um pouquinho (risos)”.
Sílvio, ex-jogador do América
Se não fosse a lesão que abreviou sua sequência, Sílvio não tinha dúvidas de que seguiria no Japão. “No primeiro mês, você estranha tudo. Língua, comida… é difícil. Você põe um calendário na parede e marca o dia de ir embora”.
“Com o tempo, você vai vendo: esse povo é bom demais, essa comida é boa demais. Você está perdido em um lugar e pergunta a um japonês onde é. Ele está vendo que você não entende, ele te leva ao local. No Brasil, isso não acontece. Se eu não tivesse machucado, teria ficado lá. Estava tudo organizado para continuar”.
Sílvio
Entrevista de Sílvio Bernardes ao No Ataque
Nascido em Uberaba, no Triângulo Mineiro, Sílvio Bernardes conciliou o futebol com a profissão de dentista. Na mesma época em que despontou no Uberaba SC, o atacante concluiu o curso de odontologia na Uniube em 1988. Posteriormente, vestiu as camisas de Palmeiras, Rio Branco de Andradas, América, Yomiuri, Democrata-GV, São José-SP, Rio Verde-GO, Tupi e Valeriodoce.
Na autobiografia “Superando Limites: a história de quem ousou jogar e estudar”, o ex-camisa 9 do América ressaltou a importância de ter uma alternativa à carreira no esporte. Ele falou sobre o livro e outros assuntos no bate-papo exclusivo com o No Ataque. Assista à íntegra no vídeo abaixo!