A comunidade do jiu-jítsu foi confrontada com um debate urgente nesta semana. Kyra Gracie, ícone das artes marciais e herdeira da linhagem que fundou a modalidade, rompeu décadas de um silêncio institucionalizado para denunciar o que descreve como uma cultura nefasta de abusos e silenciamento contra as mulheres. Em vídeo publicado no YouTube, a pentacampeã mundial detalhou episódios de assédio e criticou a proteção sistêmica concedida a figuras de poder no esporte.
A manifestação de Kyra não ocorre no vácuo. Ela surge na semana em que o multicampeão André Galvão, líder da renomada equipe Atos, foi acusado de assédio sexual pela ex-aluna norte-americana Alexa Herse, de 18 anos. O relato de Kyra corrobora a tese de que os casos recentes não são incidentes isolados, mas sintomas de um problema estrutural.
Kyra relembrou um episódio traumático ocorrido no início da fase adulta envolvendo um assediador que utilizava a influência financeira como pretexto.
“Eu preciso falar e por muitos anos fiquei calada sobre o que vivi e presenciei dentro do jiu-jítsu de competição. Há muito tempo resolvi que não posso mais ficar calada e isso foi libertador para mim”, desabafou.
“‘Imagino você peladinha dentro do meu kimono’. Um senhor de idade falando isso para uma menina. Essa menina era eu, com 18, 19 anos. E ele veio me abordar dizendo que queria me patrocinar. Eu congelei. Quando estava nos eventos, ele aparecia e eu me escondia. Congelava de novo. Ele errou, mas eu me calei. Eu guardei isso até agora porque o ambiente silencia muito as mulheres.”
‘Faz parte da cultura do jiu-jítsu’
Um dos pontos mais sensíveis do relato de Kyra Gracie é a desconstrução do mito de que o prestígio das atletas no jiu-jítsu oferece segurança. Ela relata que o assédio atinge desde iniciantes até figuras proeminentes do cenário esportivo.
“Muitas pessoas pensam que por eu ser da família Gracie estou blindada, né? Tantos tios e primos faixas-preta, mas já passei por muitas situações constrangedoras, situações de assédio e, tenho certeza, se eu não fosse da família Gracie seria muito pior”
Kyra Gracie, ex-lutadora de jiu-jítsu
A crítica de Kyra estende-se à manutenção de figuras abusivas em posições de prestígio e à conivência de quem assiste aos abusos. Ela ressaltou que o agressor que a assediou no passado continua ativo e influente no meio.
“Esse senhor do kimono que falei continua hoje patrocinando eventos e meninas no esporte. Por isso eu preciso que você também entre nessa luta. O assédio que acontece com as meninas na luta não é uma exceção, é um problema do sistema todo, faz parte da cultura do jiu-jítsu e vai sendo passado de geração e geração. Testemunhei centenas de casos e por muito tempo eu tive medo de falar”, explicou.
Vítimas descredibilizadas
Sobre a onda de denúncias recentes como a de Alexa Herse, que relatou toques inapropriados e comportamentos que configuram assédio durante os treinos, Kyra foi enfática. Sem citar o nome de André Galvão, Kyra ressaltou que muitas vezes as vítimas são descredibilizadas e os professores, protegidos.
“Sei que vou ser criticada porque estou falando agora, mas o silêncio só protege os agressores. A cada dia estão surgindo mais denúncias de assédio contra professores e nomes renomados do meio da luta. Claro que esses casos devem ser apurados pela Justiça, mas quero falar que denúncias assim, infelizmente, não me pegam de surpresa. Porque quem viveu esse meio sabe que essas situações são tratadas como normal. ‘Ah, qual o problema? A menina que está indo em cima dele, ela que tá dando mole pro professor. Fala sério, né? A maioria das mulheres do jiu-jítsu já passou por algo semelhante.”
A faixa-preta ainda deixou um questionamento contundente sobre a segurança nos tatames e a necessidade urgente de reformular os valores que regem as academias e competições.
“O ambiente da competição de jiu-jítsu é de fato muito perigoso para meninas e mulheres, salvo pouquíssimas exceções. É uma cultura que protege ídolos, os grandes mestres, silencia vítimas e incentiva esse tipo de atitude. Quem vai ser a próxima vítima?”, questionou.
Caso André Galvão
André Galvão também usou as redes sociais nesta semana para se defender do que chamou de “rumores falsos”. Sem citar o nome da ex-aluna, ele negou qualquer acusação de assédio e disse que vai tomar medidas legais contra as alegações.
“Essas alegações não são verdadeiras, e estamos tomando as medidas legais cabíveis para proteger a integridade da Atos”, afirmou.