O Osasco se pronunciou, nesta terça-feira (25/11), acerca da repercussão causada em torno da divulgação da lista preliminar de atletas inscritas no Mundial de Clubes Feminino de Vôlei, a ser disputado no Ginásio do Pacaembu, em São Paulo, entre os dias 8 e 14 de dezembro.
A relação de jogadoras chamou a atenção por ter a ponteira Natália, campeã olímpica pela Seleção Brasileira de Vôlei em Londres 2012 e ícone do clube paulista, que, contudo, não faz parte do elenco atualmente; bem como pela ausência da oposta Tifanny, campeã da Superliga em 2024/25 e importante jogadora do time.
Por que Tifanny ficou de fora?
Tifanny não está na lista de inscritos para a competição em razão de uma exigência feita pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB), quanto à realização de “mais testes” para atletas transgênero, em uma relação que se dará diretamente entre a federação e a atleta.
Por que Natália foi inscrita, mesmo não estando no time atualmente?
O Osasco decidiu adicionar Natália à lista, a fim de ter mais uma opção ofensiva, já que Tifanny, até então, não jogará o torneio.
A ponteira foi a grande destaque do time de Luizomar de Moura na última temporada. Ela foi a protagonista nas três conquistas da equipe – a Superliga, a Copa Brasil e o Campeonato Paulista.
Ao fim de 2024/25, Natália recusou as propostas de renovação e decidiu encerrar a segunda passagem dela pelo clube para atuar em dois países diferentes em 2025/26.
Entre outubro e novembro, Natália disputou a Athletes Unlimited Pro League, nos Estados Unidos; depois, entre novembro e março, está acertada para jogar pelo Tianjin Bohai Bank, da China.
Para o Mundial, o clube negocia com a jogadora, mas ainda não há “nada certo”, segundo fonte consultada pela reportagem.
O comunicado do Osasco
O Osasco se pronunciou a respeito das “polêmicas” da lista, relacionadas, sobretudo, à ausência de Tifanny e à presença de Natália. Leia, a seguir e na íntegra:
“O Osasco Voleibol Clube vem a público prestar esclarecimentos sobre a inscrição de atletas para o Campeonato Mundial de Clubes de Vôlei Feminino 2025, competição organizada pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB), que será realizada em dezembro, em São Paulo.
Em relação à ausência do nome da atleta Tifanny Abreu na lista preliminar de inscritas divulgada recentemente, o clube esclarece que a situação está diretamente relacionada ao fato de que Tifanny está se submetendo ao procedimento de autorização pela FIVB através do Comite de Elegibilidade (Sex Eligibility Committee), procedimento exigido pela FIVB para participação, em competições internacionais.
O clube reitera seu total apoio e suporte a Tifanny, que está cumprindo todas as etapas e procedimentos previstos nessas normas de elegibilidade. Por se tratar de um processo em andamento e que envolve informações médicas, jurídicas e técnicas, o clube não comentará detalhes, mas reforça que se trata de um trâmite regulatório novo e próprio das competições FIVB.
Conforme o regulamento do Mundial, os clubes devem enviar uma lista preliminar de atletas. A inclusão de nomes além do plantel atual que disputa a Superliga 25/26, faz parte do planejamento estratégico para que o Osasco esteja preparado para diferentes cenários, sempre respeitando os prazos formais. A presença de uma atleta na lista preliminar não significa, por si só, participação garantida no Mundial com a camisa de Osasco.
O Osasco Voleibol Clube reafirma seu compromisso com a inclusão, o respeito, a transparência e o cumprimento das regras que regem o voleibol nacional e internacional. Continuaremos ao lado de Tifanny, apoiando-a em todas as instâncias cabíveis para tentar viabilizar sua participação no Mundial, sempre em conformidade com as decisões das autoridades competentes.
Por fim, o clube faz um apelo público para que qualquer debate sobre o tema seja conduzido com respeito à atleta e a todas as jogadoras, rejeitando ataques pessoais e manifestações discriminatórias.”
A história de Tifanny
Tifanny iniciou sua carreira no vôlei masculino, em que chegou a defender o Juiz de Fora e iniciou oficialmente o processo de transição de gênero no final de 2012, fora do Brasil. Ela se submeteu a dois procedimentos cirúrgicos e a tratamento hormonal para diminuição dos seus níveis de testosterona, o principal hormônio sexual masculino.
Em 2017, a Federação Internacional de Vôlei (FIVB) autorizou formalmente a oposta a jogar em campeonatos femininos regularizados pela entidade e, ainda naquele ano, tornou-se a primeira mulher trans a jogar a Superliga Feminina, á época pelo Bauru. Quatro anos depois, ela se transferiu para o Osasco, onde fez história em 2024/2025 com a conquista da Tríplice Coroa: Campeonato Paulista, Copa Brasil e Superliga.
Mesmo seguindo a regulamentação do Comitê Olímpico Internacional e fazendo exames regulares, que atestam que ela está bem abaixo do nível máximo permitido de testosterona por litro de sangue, Tifanny foi alvo de muito preconceito até no meio do vôlei, entre jogadoras e ex-jogadoras e até o técnico Bernardinho.
O treinador da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei disse, em 2019, após ponto da oposta contra seu time, o Rio de Janeiro (atual Flamengo), a seguinte frase: “Um homem, é f***”. Depois da repercussão negativa após ser flagrado em câmera, ele se desculpou com a atacante. Em 2018, a oposta Tandara, que à época jogava no Osasco e na Seleção Brasileira, também se declarou contra a presença dela na Superliga, sob a justificativa vaga de que “a puberdade dela se desenvolveu no sexo masculino”.
Com o passar dos anos, embora tenha seguido sofrendo com preconceito, a jogadora passou a ser mais aceita na Superliga e chegou a ser cotada na Seleção Brasileira devido ao bom desempenho na Superliga. A convocação nunca aconteceu, mas ela atingiu feito mais importante: abriu portas para as mulheres trans no vôlei – e no esporte em geral – brasileiro.
A lista de inscritos do Osasco para o Mundial
- Centrais: Mayhara, Valquíria, Larissa, Geovana e Lara
- Ponteiras: Maiara, Maira, Natália Zillo, Natália Danielski, Giovanna, Baird e Lorena
- Opostas: Bianca Cugno e Rebeca
- Levantadoras: Jenna Gray, Marina Sioto e Ana Berto
- Líberos: Camila Brait, Sophia e Molinari Santos