A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) recorreu ao Supremo Tribunal Federal para garantir que a atleta Tiffany jogue a semifinal da Copa Brasil de Vôlei nesta sexta-feira (27/2), em Londrina, após ação da Câmara Municipal da cidade paranaense.
Apesar de atuar no vôlei feminino há nove anos e estar em conformidade com todos os testes exigidos pela CBV, Tiffany, uma mulher transexual, pode ser impedida de jogar a partida contra o Flamengo no Ginásio Moringão.
Nessa quinta-feira (26), a Câmara Municipal da cidade aprovou requerimento com o objetivo de vetar participação da oposta na partida. Segundo a parlamentar de extrema direita Jéssica Ramos Moreno (PP), conforme lei municipal promulgada em abril de 2024, é proibida a participação de atletas “cujo gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico de nascimento” em competições esportivas na cidade.
De acordo com apuração do No Ataque, o caso protocolado no STF será julgado pela ministra Carmen Lúcia. Se a jurista considerar a lei da cidade de Londrina inconstitucional, a oposta será liberada para atuar na partida.
A decisão do Supremo Tribunal Federal pode ser divulgada a qualquer momento antes do jogo diante do Flamengo, marcado para começar às 18h30 desta sexta-feira.
A história de Tifanny
Tifanny iniciou sua carreira no vôlei masculino, em que chegou a defender o Juiz de Fora, e iniciou oficialmente o processo de transição de gênero no final de 2012, fora do Brasil. Ela se submeteu a dois procedimentos cirúrgicos e a tratamento hormonal para diminuição dos níveis de testosterona – principal hormônio sexual masculino.
Em 2017, a Federação Internacional de Vôlei (FIVB) autorizou formalmente a oposta a jogar em campeonatos femininos regularizados pela entidade e, ainda naquele ano, ela se tornou a primeira mulher trans a jogar a Superliga Feminina, à época pelo Bauru.
Quatro anos depois, Tifanny se transferiu para o Osasco, onde fez história em 2024/2025 com a conquista da Tríplice Coroa: Campeonato Paulista, Copa Brasil e Superliga.
Mesmo seguindo a regulamentação do Comitê Olímpico Internacional e fazendo exames regulares, que atestam que ela está bem abaixo do nível máximo permitido de testosterona por litro de sangue, Tifanny foi alvo de muito preconceito inclusive no meio do vôlei, entre jogadoras e ex-jogadoras e até o técnico Bernardinho.
O treinador da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei disse, em 2019, após ponto da oposta contra seu time, o Rio de Janeiro (atual Flamengo), a seguinte frase: “Um homem, é f***”. Depois da repercussão negativa após ser flagrado em câmera, ele se desculpou com a atacante.
Em 2018, a oposta Tandara, que atuava no Osasco e na Seleção Brasileira, também se declarou contra a presença de Tifanny na Superliga sob a justificativa de que “a puberdade dela se desenvolveu no sexo masculino”.
Com o passar dos anos, embora tenha seguido sofrendo com preconceito, Tifanny passou a ser mais aceita na Superliga e chegou a ser cotada à Seleção Brasileira devido ao bom desempenho. A convocação nunca veio, mas ela atingiu feito mais importante: abriu portas para as mulheres trans no vôlei – e no esporte em geral – brasileiro.