A grande polêmica do vôlei passa por uma lei que apresenta graves inconsistências. E isso gerou a revolta de um ícone do esporte. Bicampeã olímpica – Pequim 2008 e Londres 2012 -, a ex-líbero Fabi Alvim fez uma postagem em uma rede social e demonstrou a insatisfação com a norma que tenta proibir Tifanny de jogar a Copa Brasil de Vôlei nesta sexta-feira (27/2).
O movimento dos vereadores de Londrina para vetar a participação de Tifanny, que ocorreu na quinta-feira (26/2), usou a lei municipal 13.770/2024 como base. Além do fato de que essa norma nem sequer foi sancionada pelo prefeito da época, há uma inconsistência que chamou a atenção de todos os fãs de vôlei, incluindo a ex-jogadora e comentarista do Grupo Globo.
“A minha revolta era uma. Dai fui ver a lei…. INACREDITÁVEL”
Fabi Alvim, ícone do vôlei mundial
No segundo parágrafo do primeiro artigo da lei, é determinada a “proibição da participação de atleta cujo gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento: gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”.
Entre vários pontos polêmicos, como a orientação sexual, um desconhecimento sobre os termos está presente no fim do parágrafo. A lei proíbe que atletas “cisgênero”, “transgênero” e “não binárias” disputem eventos esportivos em Londrina, porém isso impediria qualquer ser humano de jogar.
Cisgênero se refere às pessoas que se identificam com o sexo biológico, enquanto transgênero é a pessoa que tem identidade diferente do sexo biológico. Já a pessoa não binária não se identifica com nenhum sexo ou transita entre homem e mulher. Logo, todas estariam proibidas de atuar.
No entanto, mesmo com a definição da Câmara Municipal de Londrina na quinta-feira (26/2), a vereadora Paula Vicente (PT) afirmou que uma liminar foi emitida nesta sexta-feira (27/2), e Tifanny jogará.
A história de Tifanny
Tifanny iniciou sua carreira no vôlei masculino, em que chegou a defender o Juiz de Fora, e iniciou oficialmente o processo de transição de gênero no final de 2012, fora do Brasil. Ela se submeteu a dois procedimentos cirúrgicos e a tratamento hormonal para diminuição dos níveis de testosterona – principal hormônio sexual masculino.
Em 2017, a Federação Internacional de Vôlei (FIVB) autorizou formalmente a oposta a jogar em campeonatos femininos regularizados pela entidade e, ainda naquele ano, ela se tornou a primeira mulher trans a jogar a Superliga Feminina, à época pelo Bauru. Quatro anos depois, Tifanny se transferiu para o Osasco, onde fez história em 2024/2025 com a conquista da Tríplice Coroa: Campeonato Paulista, Copa Brasil e Superliga.
Mesmo seguindo a regulamentação do Comitê Olímpico Internacional e fazendo exames regulares, que atestam que ela está bem abaixo do nível máximo permitido de testosterona por litro de sangue, Tifanny foi alvo de muito preconceito inclusive no meio do vôlei, entre jogadoras e ex-jogadoras e até o técnico Bernardinho.
O treinador da Seleção Brasileira Masculina de Vôlei disse, em 2019, após ponto da oposta contra seu time, o Rio de Janeiro (atual Flamengo), a seguinte frase: “Um homem, é f***”. Depois da repercussão negativa após ser flagrado em câmera, ele se desculpou com a atacante.
Em 2018, a oposta Tandara, que atuava no Osasco e na Seleção Brasileira, também se declarou contra a presença de Tifanny na Superliga sob a justificativa de que “a puberdade dela se desenvolveu no sexo masculino”.
Com o passar dos anos, embora tenha seguido sofrendo com preconceito, Tifanny passou a ser mais aceita na Superliga e chegou a ser cotada à Seleção Brasileira devido ao bom desempenho. A convocação nunca veio, mas ela atingiu feito mais importante: abriu portas para as mulheres trans no vôlei – e no esporte em geral – brasileiro.