Tiro Livre

Atlético x América na final do Mineiro e a força do livre-arbítrio

O Galo reescreveu sua jornada de forma gradual, crescendo na proporção em que os jogadores passavam a jogar sem precisar tanto de GPS para se localizar em campo

O futebol tem lá suas surpresas, dando razão a um clichê que há muito ronda os gramados. No início de 2025, como o site No Ataque faz todos os anos, destacamos o repórter Pedro Bueno para ouvir jornalistas a respeito do favorito ao título mineiro. A matéria foi ao ar em 17 de janeiro. Os times estavam ainda em ritmo inicial de pré-temporada, com jogadores sendo contratados e/ou em processo bem incipiente de adaptação. Por isso, as análises se baseavam mais na perspectiva em torno do potencial das equipes do que em questões meramente práticas.

Foram ouvidos 14 cronistas esportivos, de variadas idades e veículos de comunicação. Especialistas na matéria, de dentro e de fora de Minas Gerais.

Nomes como o ex-jogador Casagrande, colunista do Portal Uol; Cláudio Arreguy, ex-editor de esportes do Jornal Estado de Minas; Mauro Beting, comentarista dos canais SBT e TNT Sports; Paulo Cesar Vasconcellos, da TV Globo; Paulo Vinícius Coelho, do Uol e da Paramount; Duda Gonçalves e Mariana Spinelli, jornalistas mineiras radicadas em São Paulo, que trabalham na TV Record e na ESPN, respectivamente; além da colunista que vos escreve e outros integrantes da mídia.

Baseado no contexto daquele momento, com o que os clubes tinham para iniciar o Estadual (a bola rolaria dois dias depois da publicação do texto), nada menos que nove dos 14 jornalistas apontaram favoritismo do Cruzeiro; três acreditaram que o Atlético ficaria com o título e dois disseram não haver favorito.

Pois, de lá para cá, o roteiro foi bem diferente. E tudo isso se deve ao famoso livre-arbítrio, aquela condição que todos temos de construir nossa história, rever direções e mudar trajetórias.

O Cruzeiro largou como time com mais chances de erguer a taça mas, no meio do caminho, mandou Fernando Diniz embora. Foi o primeiro a se garantir na semifinal do Mineiro, porém, parou por aí, caindo diante do América – que, por sua vez, chegou à decisão com uma campanha bem sólida, graças ao belo trabalho feito pelo jovem técnico William Batista.

O Atlético no Mineiro

Já o Atlético começou o Estadual com quatro empates seguidos (três deles com a equipe Sub-23, uma vez que o time principal disputava torneio amistoso nos Estados Unidos), indo para a quinta rodada do campeonato como lanterna do grupo e com apenas 10% de probabilidade matemática de avançar ao mata-mata.

Àquela altura, o técnico Cuca vaticinou: dali pra frente, era vencer ou vencer. Os quatro próximos duelos, contra Villa Nova, Athletic, Cruzeiro e Itabirito, teriam peso de decisão, para que o alvinegro dependesse apenas de si para se classificar.

Naquele momento, mais perto do fundo do poço do que do topo, o Galo começou a subir, degrau por degrau. Reescreveu sua jornada de forma gradual, crescendo na proporção em que os jogadores passavam a jogar sem precisar tanto de GPS para se localizar em campo – automatizando o posicionamento e diante de uma dinâmica de time mais bem definida.

Ganhou do Leão do Bonfim por 1 a 0. Três dias depois, outro triunfo pelo placar mínimo, desta vez sobre a equipe de São João del-Rei. Resultados suados, porém importantes naquele momento, em que vencer significava a sobrevivência na competição.

Entrou desacreditado no clássico contra o Cruzeiro, tendo um Mineirão lotado só de torcedores celestes, e venceu com autoridade: 2 a 0.

Foi para a última rodada da fase de classificação dependendo apenas de si (como determinara a meta de Cuca) e goleou o Itabirito por 3 a 0. No primeiro jogo da final contra o América, outro jogo consistente e mais uma vitória por placar elástico: 4 a 0.

Essa evolução, jogo a jogo, trouxe o Galo à condição de virtual campeão, ainda que faltem outros 90 minutos de jogo. Tem muito do treinador nessa equação. Cuca mexeu bem as peças que tem, exerceu de forma eficiente o livre-arbítrio. Foi o bastante para o Mineiro e deve ser aplaudido, mas é sabido também (inclusive muitos de dentro do Atlético já verbalizaram isso) que tudo o que aconteceu até aqui é somente mais um passo para os desafios que virão.

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